Não tenha filhos

25 de março de 2013 24 comentários


No dia 25 de fevereiro, minha amada filhota completou quatro anos. É um lance meio ingrato, porque ninguém pede sua permissão. Você pisca uma ou duas vezes e aquela criaturinha recém-nascida aprende a sustentar a cabeça, sentar, ficar em pé, andar, correr e tornar todos os seus cabelos brancos. De vez em quando bate um medo de dormir no domingo depois do almoço e, ao acordar, encontrar uma adolescente pedindo dinheiro para a balada, mas isso eu deixo pra minha sessão de terapia.

No meu blog, o Pais Modernos, eu já falei sobre várias das coisas que minha filha me ensinou. Sim, porque quem acha que são os pais os grandes educadores nessa relação, precisa seriamente rever seus conceitos. Aí, reunindo tudo que já aprendi com minha princesa, se alguém me perguntasse que conselho eu daria sobre ser pai, eu diria não tenha filhos. Isso mesmo, pode anotar aí: não tenha filhos, camarada. 

Pense bem. As crianças ocupam um tempo enorme em nossas vidas, sem perspectiva de acabar. Também ocupam um espaço gigantesco em nossas contas bancárias, com a única perspectiva de aumentar (se você fizer um gráfico com o valor mensal da creche até o último ano da faculdade, há grandes riscos de comportamento suicida). Numa vida moderna corrida e cada vez mais cara, quem precisa disso?

Depois, reflita se você precisa de mais um fator desestabilizando sua vida emocional. Sim, porque como você acha que vai ser? A cria nasce, aí o pai, que se sente o todo-poderoso e detentor de 50% das ações daquele empreendimento, é colocado de escanteio, tendo que lutar para ter o direito a pegar seu filho no colo de vez em quando... isso sob o olhar tenso de avaliação da mãe e das avós da criança(na maioria das vezes, isso é paranoia do pai, mas aí é papo pra outro dia).

Seu filho vai crescendo, você vai conquistando espaço na disputada vida da criança e descobre um novo tormento: aquele bebê que só chorava e balbuciava, agora sabe dizer “papai, por que você precisa trabalhar? Fica aqui pra brincar comigo!”. Aí, com o perdão da palavra, foda-se você e sua agonia... tem de engolir seco, fazer cara de quem passa tranquilidade e segurança ao filho e tirar alguma solução da cartola.

Meio esquizofrênico, você quer ser dois. Um para poder trabalhar o dia inteiro e garantir uma condição X ou Y para seu filho e sua família (e aqui entram os desejos daquela viagem, daquele passeio, daquela escola e tantas outras coisas). O outro, para poder ficar em casa e aproveitar todo o dinheiro que seu clone vai produzir como um workaholic. Como não inventaram solução pra isso, você sofre mais um pouco.

Por fim, entre trancos e barrancos, momentos maravilhosos e de saudade imensa, você vai ver o mundo inteiro (cada reportagem, noticiário e situação) sob um novo e complicado prisma: esse é o mundo que seu filho vai herdar. Vai dar uma sensação maluca de urgência, de querer resolver tudo isso, de jogar numa lixeira gigante tudo que não presta etc...

Mas cá entre nós (se é que você não deprimiu e conseguiu chegar até esse ponto do texto), tudo isso é uma delícia. Nada, absolutamente nada no mundo se compara com as delicias de participar assim, de pertinho, da vida do nosso filho. Talvez esse post não tenha sido sobre as maravilhas da paternidade, não porque é clichê falar sobre isso... acho que o motivo é que a paternidade não tem explicação, é um estado de espírito para além da linguagem e da razão.

Se ainda tiver dúvidas, saia correndo. Mas se não conseguir mais escapar desse universo, seja muito bem vindo... e espero você para tomar uma cerveja e rir da nossa deliciosa desgraça!


Caio é autor do blog Pais Modernos

24 comentários:

  • Deborah Gebran disse...

    Caio, que delícia de texto!!
    Realmente filhos é como ter uma passagem só de ida para um lugar desconhecido e maravilhoso!!
    Obrigada por sua participação!
    Adoramos!
    Beijinho

  • Divagações da Mamãe Tê disse...

    Caio, tudo isso se resume nas dores e delícias de sermos pais...
    Ensinamos muito, mas aprendemos demais também...

    Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos. Como sabê-los? Já dizia Vinicius de Moraes.

    E acho que é mais ou menos por aí...

    Eu amo ser mãe, como tenho certeza você ama ser pai..

    E no meio de toda essa confusão gostosa, vamos vivendo essa aventura deliciosa de ser pai e mãe..

    Belíssimo texto!

    Bem-vindo no MR. Foi um prazer tê-lo aqui!

  • Caio Melo - Pais Modernos disse...

    Nessa mistura de amor e loucura, vamos vivendo, né?

    Foi uma delícia escrever para vocês... sempre que quiserem, é só chamar. Esse cantinho de vocês é demais! (bem se convidando hehehe)

    Beijo do Caio!
    @PaisModernos_

  • Genis Borges disse...

    Oi Caio, tudo o que vc descreveu como sentimento de pai, acontece comigo como mãe. Eu relutei muito pra entrar na maternidade e agora, não conheço amor maior.
    Obg pela linda participação. É sempre bom 'escutar' ler o outro lado, o lado paterno.
    Grande abraço, Genis

  • Caio Melo - Pais Modernos disse...

    Apesar disso tudo que eu escrevi, na verdade nunca relutei para entrar na paternidade... pra falar a real, evitei foi que minha esposa soubesse antes da hora que eu sempre quis ser pai :P

    Beijo do Caio!
    @PaisModernos_

  • Jackie Graça disse...

    Caio Adorei o texto, bem realista, e apesar disso não falta amor, muitas vezes parecemos arrependidos e amargurados quando falamos abertamente sobre a realidade de ser pai/mãe, o que não é verdade, as pessoas é que não estão acostumadas a não ouvirem contos de fadas. Adorei o seu jeito descontraído de escrever, parabéns e obrigada pela participação no nosso cantinho.

  • Caio Melo - Pais Modernos disse...

    Oi, Jackie!

    É bem por aí. A tradição de mostrar um falso mar de rosas é tão grande que muitas pessoas se assustam quando alguém fala de coisas reais, que passam longe dessa vida-utópica-novela-das-seis.

    O lance é que em todas as escolhas da vida (inclusive nas melhores), é preciso abrir mão de algo, pois para todo bônus há ônus também. Assim é a nossa vida, né? Compensando as profundas olheiras dos pais de recém-nascidos com a inundação de amor ao simplesmente olhar o sorriso daquela criaturinha.

    Beijo do Caio!
    @PaisModernos_

  • Cristiane Lima disse...

    Como escolher não tê-los sem ter tido a experiência?!
    Somente quem ultrapassou essa fronteira entende bem o que vc quer dizer. É uma luta constante e num piscar de olhos eles crescem e passam a se tornar "independentes" como assim?!
    De tudo a certeza é apenas uma: essa foi nossa melhor decisão!
    bjss amei o texto
    http://cphilene.wordpress.com/

  • Caio Melo - Pais Modernos disse...

    Com certeza, Cristiane!

    Como falava hoje pela manhã com uma amiga, se tem uma coisa que é cansativa é cuidar dos filhos... mas é uma delícia aquele abraço e beijo apertados que só eles sabem dar ;)

    Beijo do Caio
    @PaisModernos_

Postar um comentário

Quando você comenta, também participa do Mamães em Rede! Comente, participe, pergunte. Obrigada!

 

©Copyright 2012 - Todos os Direitos Reservados - Mamães em Rede | Design By Arte Design